Importadores de arroz por todo o mundo, desde nas Filipinas e Irã até na África do Sul, estão atentos ao comportamento do mercado, temendo que a fraca intensidade da monção nesta temporada na Índia, segundo maior produtor mundial, possa pressionar os preços para cima.
- A monção atrasou e o arroz é a colheita mais gravemente afetada", afirmou Robert Zeigler, diretor do Instituto de Pesquisa Internacional do Arroz, em Los Baños, nas Filipinas.
- Haverá uma escassez significativa na Índia.
Nova Déli estima que 30,2 milhões de hectares foram cultivados com o grão, 17,5% a menos do que no ano passado. Com os principais Estados produtores, como Uttar Pradesh, dentre os mais atingidos, a safra nesta monção poderia encolher até 20% a 25%, segundo analistas.
O declínio na produção da Índia fará com que a demanda mundial supere a produção pela primeira vez desde 2006, de acordo com o Departamento de Agricultura dos EUA. O órgão estima a oferta mundial em 433,5 milhões de toneladas, 3% a menos que em 2008, e expansão de 1,7% no consumo, para 438,1 milhões de toneladas. Outros analistas projetam diferença maior.
A Índia, porém, acumulou estoques suficientes para atender a população por um ano. Outros países, como China e Tailândia, também mantêm grandes reservas, após dois anos de colheitas fartas. O preço barato do trigo poderia aliviar a situação e encorajar a opção por outros cereais.
Concepción Calpe, economista-sênior especializada em arroz na Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), observou que o arroz deve ser avaliado no contexto do mercado mundial de cereais.
- Embora o mercado de arroz esteja ficando mais apertado, as ofertas abundantes de trigo poderiam amortecer a pressão sobre os preços do arroz - disse.
Negociadores, analistas e autoridades admitem, contudo, que a situação é precária. Além da Índia, também estão preocupados com a seca no norte da China e os sinais de avanço do El Niño, o fenômeno meteorológico que provoca aridez nos países do Sudeste Asiático. Os maiores importadores asiáticos, como Filipinas e Bangladesh, estariam especialmente expostos a elevações no preço do arroz. Importadores na África e Oriente Médio também se mostram receosos.
O arroz é o alimento básico na Ásia e os governos da região preocuparam-se depois de Índia e Vietnã terem restringido as exportações em 2008 e desencadeado uma onda de compras impulsivas, levando o preço para o recorde de mais de US$ 1 mil por tonelada. Desde então, os preços caíram, mas a cotação referencial ficou em cerca de US$ 550, o dobro de antes da crise, em 2007.
Robert Papanos, diretor responsável pelo produto na corretora Seacor, de Houston, diz que asiáticos temerosos com a segurança alimentar doméstica podem impor restrições às exportações este ano ou em 2010, e desencadeiem novas ondas de compras impulsivas. A Índia já proibiu os embarques, incluindo em transações entre governos.
- As condições no fim de 2007, que levaram a um forte aumento dos preços em 2008, voltaram a existir agora - afirmou Papanos, acrescentando que os preços poderiam subir para algo entre US$ 600 e US$ 800 em 2010.
Bem Savage, da Jackson Son & Co., corretora de Londres, disse que o temor é que os governos intensifiquem seu envolvimento no mercado de arroz.
- Eles estão mais ativos do que há 20 anos e há o risco de que reajam de forma exagerada. O arroz é uma commodity política.
Por Javier Blas, Financial Times, de Londres